6. GERAL 14.11.12

1. GENTE
2. SOCIEDADE  O QUE QUEREM OS NDIOS
3. HISTRIA  E ELE CRIOU DEUS...
4. JUSTIA  A LEI DA BELA CONTRA O CRIME
5. ARTIGO - J.R. GUZZO  PARADA GAY, CABRA E ESPINAFRE
6. COMPORTAMENTO  O SOM QUE FAZ TUDO TREMER
7. TECNOLOGIA  OS DRONES DA PAZ
8. AUTOMVEIS  O CARRO DAS BOAS INTENES
9. BELEZA  AS TTICAS DAS MULHERES-BOMBA
10. IMPRENSA  A TELEVISO EM PAPEL

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco, Leo Pinheiro e Marlia Leoni

PALMAS PARA ELA. AGORA D PARA DESCANSAR?
Nem furaco, nem nevasca, nem boatos exagerados de algumas dobrinhas a mais atrapalharam o desfile anual da maior marca americana de lingerie em Nova York. Usar mulheres lindas em trajes mnimos e poses provocantes  uma estratgia que gera imensa mdia espontnea, expresso do mundo do marketing para divulgao gratuita. S as fotos e notcias dos preparativos do desfile renderam uma promoo calculada em 100 milhes de dlares. E isso porque ADRIANA LIMA ainda nem tinha aparecido. A modelo baiana, que teve a segunda filha em 12 de setembro, suou at a vspera do desfile. Ela comeou a malhar duas semanas depois do parto. Eram seis horas por dia, diz o personal trainer Michael Olajide. S faltaram 2,5 quilos para ela chegar ao peso ideal.

O DNA VAI SAIR CARO
A beleza, as roupas de grife e o segredo sobre o nome do pai de sua filha de 3 anos sempre provocaram frisson em torno de RACHIDA DATI, 46, ex-ministra do governo Nicolas Sarkozy. Hoje prefeita de um subrbio chique de Paris, Rachida est na Justia exigindo que o dono da maior rede de cassinos da Frana, DOMINIQUE DESSEIGNE, faa o teste de paternidade. Ele se recusa e diz que, quando teve um caso com Rachida, outros sete homens estavam no circuito. Entre eles, alega a defesa, um irmo de Sarkozy e o ex-primeiro-ministro espanhol Jos Mara Aznar. Quando saiu um livro afirmando que a atual primeira-dama, Valrie Trierweiler, teve dois romances simultneos, Rachida disse que a vida sexual tripla ou qudrupla dos polticos homens deveria ser exposta. ctupla  realmente um tour de force.

PODEM CHAMAR DE LADY MARY JANE
Agora que j foi liberado nos estados de Colorado e Washington, d para dizer: LADY GAGA est sempre fumando um cigarrinho da erva outrora chamada maldita. Sentindo-se totalmente  vontade na passagem pelo Rio de Janeiro, ela deu um tempo nos figurinos exticos e s caprichou nas perucas. Com uma rosa-alaranjada, fez a obrigatria subida ao morro, no caso o do Cantagalo, em Copacabana. Foi a deixa para EVERTON DE SOUZA OLIVEIRA, o Jubinha, 13, f de rap, tirar uma casquinha. Estava sentado na moto, chamei com a mo e bati no banco. Ela sentou, fez carinho nas minhas costas e me deu um beijo, diz o menino. Ateno: o que ele tem na boca  um canudo.

JADE D SORTE
O que  bom a gente mostra. Mas  sempre aconselhvel manter certa aura de mistrio em torno de jovens artistas movidos a fs apaixonadas, e LUAN SANTANA, 21, est seguindo a regra em seu namoro agora assumido, num passeio em Nova York, com a jovem estudante de moda JADE MAGALHES, 19. Em quatro anos de carreira, o cantor campo-grandense acumulou patrimnio para mais de 20 milho, como se diz no interior. Tem jatinho, casaro em Londrina e uma boate em So Paulo. Sua saga sertaneja vai at virar filme. Jade, que tem o nome da pedra verde da sorte,  de Alto Taquari, municpio de Mato Grosso onde at quando chove cai soja. Seu pai  prefeito de l e a me, secretria de Assistncia Social.


2. SOCIEDADE  O QUE QUEREM OS NDIOS
A mais completa pesquisa de opinio j realizada nas aldeias brasileiras revela como os ndios vivem e o que eles esperam do futuro. A maioria quer progredir socialmente, mas ainda depende do governo para sobreviver.
LEONARDO COUTINHO

     Uma das principais reclamaes dos ndios  a de no serem ouvidos. De tempos em tempos, eles tingem o corpo de vermelho e negro em sinal de guerra e saem a brandir suas bordunas, arcos e flechas em frente a representantes do governo para chamar ateno para suas reivindicaes. Na maioria das vezes, a sociedade brasileira s fica sabendo de suas demandas por meio de intermedirios  padres marxistas ou ongueiros que fazem com que os moradores das cidades acreditem que os problemas indgenas consistem em falta de terras e em obras de infraestrutura nocivas ao ambiente. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha a pedido da Confederao da Agricultura e Pecuria do Brasil (CNA) ps fim a essa lacuna.  o mais completo levantamento das opinies dos ndios brasileiros j realizado. Durante 55 dias, os pesquisadores visitaram 32 aldeias em todas as regies do pas e entrevistaram 1222 ndios de vinte etnias. Trata-se de uma amostra robusta maior, proporcionalmente, do que a que costuma ser usada nas sondagens eleitorais. As respostas revelam que os ndios tm aspiraes semelhantes s da nova classe mdia nacional, ou seja, querem progredir socialmente por meio do trabalho e dos estudos. Eles sonham com os mesmos bens de consumo e confortos da vida moderna, sem deixar de valorizar sua cultura. Muito do que  apresentado pelos intermedirios da causa indgena como prioridade nem sequer aparece na lista das preocupaes cotidianas dos entrevistados. A pesquisa libertar os ndios da sua falsa imagem de anacronismo, diz a presidente da CNA, a senadora Ktia Abreu (PSD/TO).
     Nove em cada dez ndios acham melhor morar em casa de alvenaria do que numa maloca. Oito em cada dez consideram muito importante ter um banheiro sob o teto em que vivem, um conforto desfrutado por uma minoria. Quase metade dos indgenas adoraria tomar uma ducha quentinha todos os dias. O grupo de ndios donos de automveis  seis vezes a mdia dos brasileiros de classes C e D. Ningum deixa de ser ndio por querer viver bem.  inaceitvel que as regras de como devemos ser continuem sendo ditadas de cima para baixo sem levar em considerao a nossa vontade, diz Antonio Marcos Apurin, coordenador-geral da Coordenao das Organizaes Indgenas da Amaznia Brasileira, que representa 160 etnias. Segundo Apurin, por causa da falta de condies adequadas nas reas demarcadas, muitas aldeias passam por um xodo sem precedentes. H quatro anos, 12.500 ndios viviam na periferia de Manaus. Hoje, estima-se que mais de 30.000 vivam apinhados em construes precrias na cidade. Se a criao de reservas  alardeada como a demanda mais urgente dos povos indgenas, por que eles as esto abandonando para viver em favelas? Com a palavra, os ndios. O problema mais citado  a precariedade dos servios de sade. Eles se queixam principalmente da falta de medicamentos farmacuticos (que eles valorizam tanto quanto os remdios tradicionais) e de mdicos. Em segundo lugar est a falta de emprego. Ns no vivemos mais como nos meus tempos de infncia. A nova gerao compreende a vantagem de ter um emprego, uma renda. Ela quer ter roupa de homem branco, celular e essas coisas de gente jovem. Os governantes precisam aprender que nossos filhos querem ter tudo que os filhos do homem branco tm. Falar portugus, ir para a universidade e ser reconhecidos como brasileiros e ndios, diz o cacique Megaron Txucarrame, um dos mais respeitados lderes caiaps, de Mato Grosso.
     A questo fundiria  um tema marginal. Quando instados a falar sobre seus problemas individuais, os entrevistados nem sequer citaram a criao ou a ampliao de reservas. O assunto s ganhou relevncia quando aplicado aos ndios em geral. Nesse caso, a demarcao de reas  o segundo problema mais mencionado, depois de sade. Isso significa que, quando pensam nos outros ndios, os entrevistados so to influenciados pela campanha a favor da demarcao de reservas como o restante da populao. Ao avaliarem sua situao pessoal, porm, apontam outras prioridades. Quando nos fazem acreditar que precisamos de mais reservas, os problemas mais urgentes so esquecidos, diz o ndio macuxi Jonas Marcolino, de Roraima, formado em matemtica e estudante de direito.
 claro que, quando questionados se gostariam de ter mais terras, a maioria dos ndios entrevistados disse que sim. Se a pergunta fosse feita a um fazendeiro, qual seria a resposta? A mesma, evidentemente.
     O socilogo Bernardo Sorj, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que, ao conviverem com o resto da sociedade,  inevitvel que os povos indgenas absorvam valores e expectativas da cultura nacional e aspirem aos mesmos direitos. Trata-se de um processo de transformao crivado de tenses que exige dos ndios um esforo para aliar a tradio  modernidade. Cabem aos demais brasileiros compreenso, respeito e apoio para que eles faam essa sntese, que ser sempre instvel, entre a ancestralidade e a vida moderna, diz Sorj. Missionrios e militantes que tentam resumir a questo indgena  expanso das reservas, anotem: o que os ndios mais querem  sade, emprego e saneamento.

O SONHO DA MODERNIDADE
A pesquisa do Datafolha encomendada pela CNA mostra que os ndios aspiram s mesmas conquistas materiais e sociais almejadas pela maioria dos brasileiros. Para eles, no h contradio entre a identidade indgena e os confortos e desafios da vida moderna, o que inclui trabalhar e estudar como qualquer outra pessoa. Eles querem cidadania plena e no desejam viver como os antepassados viviam cinco sculos atrs. Foram entrevistados 1222 moradores de 32 aldeias indgenas em todas as regies do pas

OS NDIOS NO QUEREM FICAR PRESOS AO PASSADO,...
67% gostariam de ter cursado uma faculdade
19%
7%
PROFISSES MAIS COBIADAS
1 Professor 19%
2 Enfermeiro 7%
3 Mdico 7%

92% acham importante ter medicamentos farmacuticos
79% sonham em ter banheiro dentro de casa
47% afirmam que ter chuveiro com gua quente  muito importante
86% preferem habitaes de alvenaria

...O QUE NO SIGNIFICA PERDER A IDENTIDADE,...
93% consideram importante ter remdios naturais na aldeia
89% no estariam dispostos a deixar sua aldeia para morar em outro lugar
59% mantm tradies culturais, como festas e rituais
71% vivem em aldeias com lngua ou dialeto prprio
16% acham que no so devidamente reconhecidos como cidados brasileiros

...MAS AINDA VIVEM EM PIORES CONDIES E DEPENDEM MAIS DO GOVERNO DO QUE A MAIORIA DOS BRASILEIROS
Renda familiar mensal inferior a dois salrios mnimos: ndios 79%; Brasil 44%
Famlias beneficirias do Bolsa Famlia: ndios 64%; Brasil 25%
Taxa de analfabetismo: ndios 33%; Brasil 9%
Fumantes: ndios 29%; Brasil 15%
Tm curso superior: ndios 6%; Brasil 11%
Tm casa com banheiro: ndios 18%; Brasil 98%
Tm acesso  internet: ndios 11%; Brasil 37%
No tm trabalho remunerado: ndios 70%; Brasil 6%
46% recebem cesta bsica da Funai
29% vivem da agricultura, da criao de animais, da caa ou da pesca de subsistncia
9% fazem artesanato para vender
6% tm chuveiro quente em casa
Fonte: Data Folha/Confederao da Agricultura e Pecuria do Brasil (CNA)

PRINCIPAIS RELIGIES
68% seguem uma religio no indgena
Catlica 41%
Evanglica 22%

20% tm propriedades registradas em seu nome fora das aldeias.
57% acham que as terras onde vivem deveriam ser maiores e que a demarcao de reservas melhoraria a vida dos ndios em geral.

PRINCIPAIS PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS ENTREVISTADOS
Acesso a servios de sade 30%
Falta de emprego 16%
Saneamento bsico insuficiente 16%
Alimentao precria 12%
Acesso  educao 10%
Falta de transporte 9%
Falta de recursos econmicos prprios 6%
Qualidade da moradia 5%
Acesso  energia 5%
Falta de investimentos pblicos e privados 3%

CONCLUSO
Os entrevistados acham que os ndios em geral precisam de mais terras, mas pessoalmente no colocam a expanso das reservas na sua lista de prioridades. Eles esto mais preocupados em melhorar o acesso a servios de sade e em conseguir emprego.


3. HISTRIA  E ELE CRIOU DEUS...
Os afrescos que representam o Gnesis, pintados por Michelangelo no teto da Capela Sistina, completaram meio milnio. Esboos seus esto expostos em Roma.
MARIO SABINO, DE ROMA

Os afrescos de Michelangelo Buonarroti na Capela Sistina, em Roma, so o pice da pintura, a primeira das artes humanas, cujo incio remonta aos desenhos de animais traados nas paredes das cavernas em que viviam nossos ancestrais pr-histricos. Nada rivaliza com eles em beleza, em poesia, em sntese. Os afrescos do teto da Sistina, que retratam cenas do Gnesis, o livro da Bblia que narra a criao do mundo, foram terminados h meio milnio, em 31 de outubro de 1512, depois de quatro anos de trabalho, por um Michelangelo que no se julgava pintor, mas escultor  e que assim se consideraria (e seria classificado por contemporneos seus) at sua morte. Outra ironia a marcar o meio milnio: o teto da Sistina s recebeu os afrescos do artista toscano porque uma rachadura, causada pela instabilidade do terreno pantanoso sobre o qual a capela foi construda e pelo sobrepeso de um alojamento de soldados, em pavimento superior depois eliminado, havia danificado o cu azul-escuro e estrelado que o enfeitava  um lugar-comum na decorao das igrejas construdas nos sculos precedentes. Do encontro de um escultor que aceitara a contragosto a encomenda dos afrescos, de um acidente terreno que cindira o firmamento da Sistina e da soberba do papa guerreiro, Jlio II, que passaria  posteridade no por comandar pessoalmente os exrcitos pontifcios, mas por ter sido mecenas de Michelangelo e Rafael, nasceu a obra de arte mais esplendorosa de todos os tempos. O belo por linhas tortas.
     Roma comemora os 500 anos dos afrescos do teto da Sistina com uma mostra dos esboos de Michelangelo, feitos a lpis sobre papel, de algumas das figuras da capela. Os doze desenhos, parte do acervo da Casa Buonarroti, em Florena, esto expostos no Palazzo San Macuto, um apndice da Cmara dos Deputados italiana, em vitrines parecidas com as de joalherias (e  de joias que se trata, de fato), numa biblioteca cujas paredes esto forradas de estantes com tomos de projetos de lei.  curioso: projetos de legislao efmeros a emoldurar um projeto que se concretizou em obra imanente. Ao lado de cada desenho, h uma reproduo do afresco de que ele  rascunho. A exceo  o que traz um soneto escrito por Michelangelo. No poema, o artista faz um desabafo sobre o esforo fsico de afrescar o teto inteiro da capela, numa posio que contraria a natureza, deixa clara, ainda, a angstia de no conseguir cumprir a contento a tarefa a ele confiada  e, por fim, o ilustra, na margem direita, com um autorretrato em que aparece pintando a Sistina, da mesma forma que um menino faz desenhos em seu caderno de lies.  comovente.
     At aceitar a encomenda do papa, como resume o historiador canadense Ross King, no livro Michelangelo e o Teto do Papa, o artista tivera apenas uma experincia (incompleta) com afresco  uma tcnica dificlima, por ter como superfcie uma camada de gesso molhado (a fresco), que absorve rapidamente os pigmentos da tinta  base de gua, imprimindo-os na parede de tijolos, sem chance de correo. Como se no bastasse, aos 33 anos, quando foi convencido a afrescar a capela, ele s manejara pincis para pintar a obra Sagrada Famlia, tambm conhecida como Tondo Doni, um leo sobre madeira redonda encomendado por Agnolo Doni, amigo do artista. Dimenso da nica pintura feita por Michelangelo antes de iniciar os trabalhos na Sistina: um dimetro que no chega a 1,20 metro. Dimenses da capela construda entre 1477 e 1483, com muros de 3 metros de espessura, em sua base, e sistemas de defesa de castelo, para tambm servir de refgio ao papa Sisto IV (da seu nome), no caso de enfrentamento de revoltas populares: 41 metros de comprimento, 20 de altura e 13,5 de largura, proporo que emula a do Templo de Salomo, de acordo com a Bblia. Ou seja, o escultor Michelangelo foi encarregado de pintar uma rea equivalente a quase a metade de um campo de futebol, de cima de andaimes do tamanho de um prdio de sete andares. Ele trabalhou praticamente sozinho, apesar de estudos mais recentes sugerirem que o artista se valeu de um exrcito de ajudantes. Diz Antonio Paolucci, diretor dos Museus Vaticanos e um dos maiores especialistas do mundo em arte italiana do Renascimento: Michelangelo contou apenas com colaboradores eventuais. O contrato assinado em 1508 previa uma iconografia que ele reinventou de forma radical.
     Os desenhos de Michelangelo para a Sistina so rascunhos de escultor, e no desenhos preparatrios de pinturas. Ele esboa rostos, corpos, braos e pernas como se fosse model-los em mrmore. Modelou-os em tinta. Essa  uma das diferenas das pinturas do artista na Sistina em relao a todas as outras de seu tempo: elas tm volumes prprios de esculturas e, desse modo, causam um efeito tridimensional indito. Como escultor, Michelangelo j havia realizado duas obras magnficas: La Piet, atualmente exposta na Baslica de So Pedro, e Davi, agora protegido das intempries no Museu da Academia, em Florena. Quando comeou a esculpir La Piet, o artista somava 23 anos.  uma obra to extraordinria, de uma maturidade impressionante em todos os seus fundamentos, que, antes mesmo de terminada, muitos duvidavam ter sido forjada pelo jovem recm-sado da oficina de Domenico Ghirlandaio. Michelangelo esculpiu uma fina faixa em diagonal, sobre o peito de Maria, com a inscrio em latim Michel, Angelus, Buonarotus, Florent, Faciebat. Ou seja, Michelangelo Buonarroti, de Florena, fazia. De acordo com o artista e historiador Giorgio Vasari, seu contemporneo,  a nica obra assinada por ele. Quanto a Davi, a escultura gigante remete ao poder da repblica florentina e tambm  fruto da preferncia sexual e artstica de Michelangelo, para quem o corpo masculino constitua exemplo da perfeio divina.
     Logo aps completar Davi, em 1505, o artista foi convocado por Jlio II a ir a Roma. O papa queria que ele lhe esculpisse um tmulo a comprovar na morte a sua glria em vida. Michelangelo endividou-se para adquirir toneladas de mrmore, mas o papa desistiu do tmulo, por causa dos custos com a nova Baslica de So Pedro (da qual Michelangelo faria a cpula) e porque, segundo Vasari, o arquiteto Bramante teria desaconselhado Jlio II a empregar um de seus desafetos. Desesperado, sem conseguir ser recebido pelo papa, o artista fugiu de Roma a cavalo, prometendo nunca mais colocar os ps na cidade. Voltaria em 1508, depois dos apelos constantes de Jlio II e do ultimato dos senhores de Florena, que temiam que o pontfice lhes declarasse guerra por causa de um artista teimoso  no para esculpir o tmulo, que se tornaria sua obsesso, mas para afrescar o teto da capela cindido por uma rachadura. O tmulo acabaria sendo executado muitos anos depois da morte de Jlio II, em verso bem mais reduzida que a do primeiro projeto, mas com uma compensao: dele faz parte Moiss, a escultura que mesmerizaria Freud, o pai da psicanlise.
     O gnio de Michelangelo fica mais evidente porque a Sistina apresenta, em suas laterais, embaixo das janelas, pinturas de mestres do porte de Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, Pietro Perugino e Luca Signorelli. Eles foram enviados a Roma por Lorenzo de Medici, para celebrar a reconciliao entre Florena e o papa Sisto IV. Por que nenhum deles afrescou o teto da capela? Pelo fato de que enfeitar o teto de igrejas era considerado uma tarefa secundria, j que se tinha como certo que ningum arriscaria um torcicolo para apreciar figuras l em cima. Depois de Michelangelo, aumentou a incidncia de torcicolos.
     De 1508 a 1512, ele pintou nove cenas do Gnesis. Tornou-se corrente atribuir a artistas renascentistas mensagens criptogrficas em suas obras. A Sistina de Michelangelo no poderia escapar aos que exploram esse filho. H quem nela veja significados cabalsticos ou at antecipaes de imagens de tomografia. Pode ser que haja representaes ocultas nos seus afrescos, mas nada se sobrepe  sua beleza, objetivo precpuo de Michelangelo. Ela hoje  admirada por 5 milhes de turistas a cada ano. E tal a quantidade de gente que, depois de vinte anos do fim da restaurao que devolveu as cores originais aos afrescos, j se notam pequenos desgastes nas figuras, causados pelo gs carbnico expirado pela multido.
     Em 2041, h outro meio milnio a ser comemorado na Capela Sistina: o do afresco Juzo Final, pintado por Michelangelo atrs do altar da capela, com cerca de 400 personagens. Nele, o artista mostra um universo em que j no existe misericrdia. A atitude do Cristo imberbe  a de um magistrado implacvel.  a representao de um momento em que no h nem mesmo mais Igreja, com So Pedro devolvendo as chaves a Jesus.  uma sinfonia da cacofonia humana, em que se misturam catolicismo e paganismo, com a barca do grego Caronte despejando os danados no inferno. Atacado pelo poeta Pietro Aretino, que no via nas obras de Michelangelo a mesma harmonia das de Rafael e que fizera coro  crtica aos nus presentes nos afrescos da capela (alguns seriam cobertos duas dcadas mais tarde, a mando do Conclio de Trento), o artista perpetrou uma vingana eterna: retratou Aretino como So Bartolomeu, em cujas mos est a pele descarnada dele prprio, Michelangelo. Jamais tenha um gnio como inimigo.

La mia pictura morta difendi orma, Giovanni, e l mio onore; non sendo in loco bon, n io pictore.
O SONETO ILUSTRADO POR UM AUTORRETRATO
A minha pintura morta, defende agora, Giovanni, e a minha honra; no estando eu em lugar bom, nem sendo eu um pintor


4. JUSTIA  A LEI DA BELA CONTRA O CRIME
Depois do vazamento de fotos de Carolina Dieckmann, o Congresso aprova legislao para combater malfeitos virtuais, como o roubo de dados em invaso de computador.

     A terra sem lei da internet vai ficar um pouco menos insegura. O Congresso aprovou na ltima quarta-feira uma lei que determina punies para quem invadir computadores para obter dados, divulgar essas informaes e disseminar vrus, entre outros crimes do mundo virtual (veja o quadro). At agora, a polcia e os juzes tinham de fazer malabarismos para adaptar a legislao j existente, toda ela pr-internet, para tentar enquadrar esses criminosos. O resultado, no mais das vezes, era a impunidade dos violadores. O debate sobre uma legislao especfica para a internet se arrastava em velocidade de conexo discada havia mais de uma dcada, mas ganhou mpeto depois da invaso do computador da atriz global Carolina Dieckmann  que acabou por batizar a nova lei. Roubadas, fotos ntimas que mostravam toda a sua beleza mignon explodiram no ibope da rede mundial de computadores no comeo de maio. Logo aps o vazamento, cinco homens, que haviam tentado chantagear a atriz, foram pegos e indiciados pelos crimes de extorso qualificada, difamao e furto  mas no pela invaso de seu computador. Eles podem pegar at quinze anos de priso. Se a Lei Carolina Dieckmann estivesse em vigor, a pena poderia ser estendida por mais quatro anos.
     Outra lei, em discusso desde 1999, tambm foi aprovada no pacote Dieckmann e tipificou o crime de falsificao de cartes de crdito e dbito por meio eletrnico. A ofensiva  positiva, mas especialistas avaliam que as novas leis j nascem com brechas. Elas no preveem punio, por exemplo, para algum que tenta invadir um computador mas no consegue, ou o invade e no rouba nada, apenas por curiosidade. Mesmo com as falhas, o avano  inegvel. O Brasil tem a quinta maior populao de usurios de internet no mundo, com 70 milhes de pessoas, que passam em mdia 25 horas por ms online. Com uma movimentao dessas, j era hora de termos segurana jurdica para nossos usurios, diz Renato Opice Blum, advogado especialista em crimes de internet.

O QUE A NOVE LEI TORNA CRIME
 Invadir computadores para obter, adulterar ou destruir dados ou informaes.
Pena: 3 meses a 1 ano de priso e multa. A punio aumenta de um sexto a um tero se o crime resultar em prejuzo econmico.
 Facilitar a invaso ou produzir, oferecer ou distribuir programas que o faam (como vrus).
Pena: 3 meses a 1 ano de priso e multa. Sobe de um sexto a um tero se o crime provocar prejuzo econmico.
 Obter, atravs da invaso, contedo de mensagens eletrnicas privadas, segredos comerciais e industriais, informaes sigilosas ou controle remoto do computador invadido
Pena: 6 meses a 2 anos e multa. Aumenta de um a dois teros se houver divulgao, comercializao ou transmisso dos dados obtidos. Se o crime for cometido contra altas autoridade, a pena aumenta de um tero a 50%.
 Interromper ou perturbar o servio de internet.
Pena: 1 a 3 anos. A pena dobra se o crime for cometido durante calamidades pblicas.


5. ARTIGO - J.R. GUZZO  PARADA GAY, CABRA E ESPINAFRE
     J deveria ter ficado para trs no Brasil a poca em que ser homossexual era um problema. No  mais o problema que era, com certeza, mas a verdade  que todo o esforo feito h anos para reduzir o homossexualismo a sua verdadeira natureza  uma questo estritamente pessoal  no vem tendo o sucesso esperado. Na vida poltica, e s para ficar num caso recente, a rejeio ao homossexualismo pela maioria do eleitorado continua sendo considerada um valor decisivo nas campanhas eleitorais. Ainda agora, na eleio municipal de So Paulo, houve muito rudo em torno do infeliz kit gay que o Ministrio da Educao inventou e logo desinventou, tempos atrs, para sugerir aos estudantes que a atrao afetiva por pessoas do mesmo sexo  a coisa mais natural do mundo. No deu certo, no caso, porque o ex-ministro Fernando Haddad, o homem associado ao kit, acabou ganhando  assim como no tinha dado certo na eleio anterior, quando a candidata Marta Suplicy (curiosamente, uma das campes da causa gay no pas) fez insinuaes agressivas quanto  masculinidade do seu adversrio Gilberto Kassab e foi derrotada por ele. Mas a  que est: apesar de sua aparente ineficcia como caa-votos, dizer que algum  gay, ou apenas pr-gay, ainda  uma acusao. Pode equivaler a um insulto grave  e provocar uma denncia por injria, crime previsto no artigo 140 do Cdigo Penal Brasileiro. Nos cultos religiosos, o homossexualismo continua sendo denunciado como infrao gravssima. Para a maioria das famlias brasileiras, ter filhos ou filhas gay  um desastre  no do tamanho que j foi, mas um drama do mesmo jeito.
     Por que o empenho para eliminar a antipatia social em torno do homossexualismo rateia tanto assim? O mais provvel  que esteja sendo aplicada aqui a Lei das Consequncias Indesejadas, segundo a qual aes feitas em busca de um determinado objetivo podem produzir resultados que ningum queria obter, nem imaginava que pudessem ser obtidos.  a velha histria do Projeto Apollo. Foi feito para levar o homem  Lua; acabou levando  descoberta da frigideira Tefal. A Lei das Consequncias Indesejadas pode ser do bem ou do mal.  do bem quando os tais resultados que ningum esperava so coisas boas, como aconteceu no Projeto Apolo: o objetivo de colocar o homem na Lua foi alcanado  e ainda rendeu uma bela frigideira, alm de conduzir a um monte de outras invenes provavelmente mais teis que a prpria viagem at l.  do mal quando os efeitos no previstos so o contrrio daquilo que se pretendia obter. No caso das atuais cruzadas em favor do estilo de vida gay, parece estar acontecendo mais o mal do que o bem. Em vez de gerar a paz, todo esse movimento ajuda a manter viva a animosidade; divide, quando deveria unir. O kit gay, por exemplo, pretendia ser um convite  harmonia  mas acabou ficando com toda a cara de ser um incentivo ao homossexualismo, e s gerou reprovao. O fato  que, de tanto insistirem que os homossexuais devem ser tratados como uma categoria diferente de cidados, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espcie ameaada, a ser protegida por uma coleo cada vez maior de leis, os patronos da causa gay tropeam frequentemente na lgica  e se afastam, com isso, do seu objetivo central.
     O primeiro problema srio quando se fala em comunidade gay  que a comunidade gay no existe  e tambm no existem, em consequncia, o movimento gay ou suas lideranas. Como o restante da humanidade, os homossexuais, antes de qualquer outra coisa, so indivduos. Tm opinies, valores e personalidades diferentes. Adotam posies opostas em poltica, religio ou questes ticas. Votam em candidatos que se opem. Podem ser a favor ou contra a pena de morte, as pesquisas com clulas-tronco ou a legalizao do suicdio assistido. Aprovam ou desaprovam greves, o voto obrigatrio ou o novo Cdigo Florestal  e por a se vai. Ento por que, sendo to distintos entre si prprios, deveriam ser tratados como um bloco s? Na verdade, a nica coisa que tm em comum so suas preferncias sexuais  mas isso no  suficiente para transform-los num conjunto isolado na sociedade, da mesma forma como no vem ao caso falar em comunidade heterossexual para agrupar os indivduos que preferem se unir a pessoas do sexo oposto. A tendncia a olharem para si mesmos como uma classe  parte, na verdade, vai na direo exatamente contrria  sua principal aspirao  a de serem cidados idnticos a todos os demais.
     Outra tentativa de considerar os gays como um grupo de pessoas especiais  a postura de seus porta-vozes quanto ao problema da violncia. Imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da populao: j se ouviu falar em holocausto para descrever a sua situao. Pelos ltimos nmeros disponveis, entre 250 e 300 homossexuais foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num pas onde se cometem 50.000 homicdios por ano, parece claro que o problema no  a violncia contra os gays;  a violncia contra todos. Os homossexuais so vtimas de arrastes em prdios de apartamentos, sofrem sequestros-relmpago, so assaltados nas mas e podem ser mortos com um tiro na cabea se fizerem o gesto errado na hora do assalto  exatamente como ocorre a cada dia com os heterossexuais; o drama real, para todos, est no fato de viverem no Brasil. E as agresses gratuitas praticadas contra gays? No h o menor sinal de que a imensa maioria da populao aprove, e muito menos cometa, esses crimes: so fruto exclusivo da ao de delinquentes, no da sociedade brasileira.
     No h proveito algum para os homossexuais, igualmente, na facilidade cada vez maior com que se utiliza a palavra homofobia: em vez de significar apenas a raiva maligna diante do homossexualismo, como deveria, passou a designar com frequncia tudo o que no agrada a entidades ou militantes da causa gay. Ainda no ms de junho, na ltima Parada Gay de So Paulo, os organizadores disseram que 4 milhes de pessoas tinham participado da marcha  j o instituto de pesquisas Datafolha, utilizando tcnicas especficas para esse tipo de medio, apurou que o comparecimento real foi de 270.000 manifestantes, e que apenas 65.000 fizeram o percurso do comeo ao fim. A Folha de S.Paulo, que publicou a informao, foi chamada de homofbica. Alegou-se que o nmero verdadeiro no poderia ter sido divulgado, para no estimular o preconceito  mas com isso s se estimula a mentira. Qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo  considerado homofbico: insiste-se que sua publicao no deve ser protegida pela liberdade de expresso, pois pregar o dio  crime. Mas se algum diz que no gosta de gays, ou algo parecido, no est praticando crime algum  a lei, afinal, no obriga nenhum cidado a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja l o que for. Na verdade, no obriga ningum a gostar de ningum; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos.
     H mais prejuzo que lucro, tambm, nas campanhas contra preconceitos imaginrios e por direitos duvidosos. Homossexuais se consideram discriminados, por exemplo, por no poder doar sangue. Mas a doao de sangue no  um direito ilimitado  tambm so proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma histria clnica de diabetes, hepatite ou cardiopatias. O mesmo acontece em relao ao casamento, um direito que tem limites muito claros. O primeiro deles  que o casamento, por lei,  a unio entre um homem e uma mulher: no pode ser outra coisa. Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condies que quiserem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em pblico e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligao no  um casamento  no gera filhos, nem uma famlia, nem laos de parentesco. H outros limites, bem bvios. Um homem tambm no pode se casar com uma cabra, por exemplo: pode at ter uma relao estvel com ela, mas no pode se casar. No pode se casar com a prpria me, ou com uma irm, filha, ou neta, e vice-versa. No poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorizao dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estar cometendo um crime. Ningum, nem os gays, acha que qualquer proibio dessas  um preconceito. Que discriminao haveria contra eles, ento, se o casamento tem restries para todos? Argumenta-se que o casamento gay serviria para garantir direitos de herana  mas no parece claro como poderiam ser criadas garantias que j existem. Homossexuais podem perfeitamente doar em testamento 50% dos seus bens a quem quiserem. Tm de respeitar a legtima, que assegura a outra metade aos herdeiros naturais  mas essa obrigao  exatamente a mesma para qualquer cidado brasileiro. Se no tiverem herdeiros protegidos pela legtima, podero doar livremente 100% de seu patrimnio  ao parceiro,  Santa Casa de Misericrdia ou  Igreja do Evangelho Quadrangular. E da?
     A mais nociva de todas essas exigncias, porm,  o esforo para transformar a homofobia em crime, conforme se discute atualmente no Congresso. No h um nico delito contra homossexuais que j no seja punido pela legislao penal existente hoje no Brasil. Como a inveno de um novo crime poderia aumentar a segurana dos gays, num pas onde 90% dos homicdios nem sequer chegam a ser julgados? A criminalizao da homofobia  uma postura primitiva do ponto de vista jurdico, aleijada na lgica e impossvel de ser executada na prtica. Um crime, antes de mais nada, tem de ser tipificado  ou seja, tem de ser descrito de forma absolutamente clara. No existe mais ou menos no direito penal; ou se diz precisamente o que  um crime, ou no h crime. O artigo 121 do Cdigo Penal, para citar um caso clssico, diz o que  um homicdio: Matar algum. Como seria possvel fazer algo parecido com a homofobia? Os principais defensores da criminalizao j admitiram, por sinal, que pregar contra o homossexualismo nas igrejas no seria crime, para no baterem de frente com o princpio da liberdade religiosa. Dizem, apenas, que o delito estaria na promoo do dio. Mas o que seria essa promoo? E como descrever em lei, claramente, um sentimento como o dio?
     Os gays j percorreram um imenso caminho para se libertar da selvageria com que foram tratados durante sculos e obter, enfim, os mesmos direitos dos demais cidados. Na iluminadssima Inglaterra de 1895, o escritor Oscar Wilde purgou dois anos de trabalhos forados por ser homossexual; sua vida e sua carreira foram destrudas. Na Frana de 1963, o cantor e compositor Charles Trenet foi condenado a um ano de priso, pelo mesmo motivo. Nada lhe valeu ser um dos maiores nomes da msica popular francesa, autor de mais de 1000 canes, muitas delas obras imortais como Douce France  uma espcie de segundo hino nacional de seu pas. Wilde, Trenet e tantos outros foram homens de sorte  antes, na Europa do Renascimento, da cultura e da civilizao, homossexuais iam direto para as fogueiras da Santa Madre Igreja. Essas barbaridades no foram eliminadas com paradas gay ou projetos de lei contra a homofobia, e sim pelo avano natural das sociedades no caminho da liberdade.  por conta desse progresso que os homossexuais no precisam mais levar uma vida de terror, escondendo sua identidade para conseguir trabalho, prover o seu sustento e escapar s formas mais brutais de chantagem, discriminao e agresso.  por isso que se tornou possvel aos gays, no Brasil e no mundo de hoje, realizar o que para muitos  a maior e mais legtima ambio: a de serem julgados por seus mritos individuais, seja qual for a atividade que exeram, e no por suas opes em matria de sexo.
     Perder o essencial de vista, e iludir-se com o secundrio, raramente  uma boa ideia.


6. COMPORTAMENTO  O SOM QUE FAZ TUDO TREMER
O eletromelody embala milhares de jovens na periferia de Belm e no interior do Par, faturando milhes em uma economia informal em que a pirataria  parte do negcio.
KALLEO COURA

     Da periferia de Belm  areia das praias dos rios pelo interior do Par,  impossvel passar uma noite sem escutar a batida eletrnica acelerada, a todo momento acompanhada por vozes femininas agudas, que cantam repetindo incansavelmente a palavra treme. Isso  o eletromelody  msica que  uma vertente do tecnobrega e mistura ritmos to diversos como o house europeu, a cumbia latino-americana e o tradicionalmente paraense carimb. O treme-treme treme mesmo nas festas de aparelhagem, que atraem milhares de adeptos do eletromelody quase todas as noites. Dezenas de festas simultneas entram pela madrugada. A mais concorrida, a Super Pop, rene at 80.000 fs em shows especiais, pblico mais que suficiente para lotar o Estdio do Morumbi, em So Paulo. Em dias fracos aparecem cerca de 4000 pessoas, nmero capaz de gerar uma renda de 50.000 reais s de bilheteria.
     A msica do eletromelody  acelerada e contagiante.  raro ver algum casal danando junto como nas tradicionais festas de brega do Par. Todo mundo se rende ao treme-treme, o movimento de enguia eltrica que comea pelos ombros e arrasta todo o corpo. O efeito de hipnose coletiva se acentua, pois os danarinos do eletromelody tremem sem parar, olhando fixamente para a nave onde est o DJ. A festa tem seus cdigos. A cada minuto, no meio das msicas, os DJs sadam algum dos presentes.  impossvel conhecer todo mundo, ento muitos levam faixas com seu nome para a gente ler. Se esquecermos algum, eles vm cobrar, diz Elias Junior, o DJ Juninho, da Super Pop, que recebe um cach de 15.000 reais nos dias mais animados. No clmax da festa, ele sobe em cima da nave  uma guia que se mexe de um lado para o outro , dana e solta simulacros de fogos de artifcio com fitas sobre o pblico. Nesse momento, a guia ejeta uma chuva de papel picado e fascas, o que eleva a intensidade do transe. O medidor mais claro do grau de adeso do frequentador  a quantidade de baldes de gelo com cerveja em cima de sua mesa.
     As grandes promotoras de festas de eletromelody so ferrenhas concorrentes. Quem tem a tecnologia mais avanada ou a estrutura mais portentosa lidera. Um equipamento de respeito pode ter 45 toneladas de luzes, teles de LED, amplificadores e caixas de som. Faz parte da disputa propagandear efeitos exclusivos. Uma diz oferecer efeitos 3D, embora nada visto na festa justifique a afirmao de tridimensionalidade. Outra garante ser a nica com imagens em alta definio e com cenrio em 360 graus.  at bem-sucedida a clara tentativa de emular a turn recente do U2, em que a banda tocava no meio do pblico.
     Alm de serem a principal diverso dos jovens da periferia no Par, as aparelhagens so um dos motores da economia. Um estudo feito em 2006 pela Fundao Getulio Vargas (FGV) mostrou que o faturamento mensal do negcio batia em 10 milhes de reais. Hoje, seis anos depois, o aumento exponencial do nmero de festas e de frequentadores teve um mpeto idntico ao da arrecadao. Ao contrrio da indstria da msica oficial, na qual a pirataria  um inimigo a ser combatido, no eletromelody ela  um dos maiores aliados. Os CDs piratas so os maiores divulgadores dos artistas, que ajudam na distribuio indo eles mesmos entregar aos camels as compilaes de suas msicas. O Par se tornou um grande laboratrio de inovaes para a indstria musical, diz Ronaldo Lemos, um dos autores da pesquisa.
     O DJ Waldo Squash, lder da Gang do Eletro e criador, entre outros, do eletromelody,  um dos nomes mais preeminentes dessa cena. Parceiros de Gaby Amarantos, que ganhou fama como a Beyonc do Par, Waldo e sua banda subverteram a lgica informal do mercado do tecnobrega ao assinar com uma gravadora tradicional. Waldo aprendeu sozinho a compor msicas com a ajuda de um computador. Enquanto o sucesso no vinha, ele trabalhava reproduzindo CDs piratas vendidos em feiras e como locutor de rdio. Um dia mandei uma msica para uma aparelhagem. S descobri que tinha estourado quatro meses depois, lembra o DJ, cujos sucessos chegaram at a Europa. Waldo est de malas prontas para tocar neste ms em um festival de msica eletrnica em Berlim. Diz ele: Vamos fazer o mundo tremer.


7. TECNOLOGIA  OS DRONES DA PAZ
Desenvolvidos para uso militar, os avies no tripulados j so utilizados para mapear fazendas e identificar falhas em usinas nucleares. Por 600 reais, d para ter um em casa.
NATHALIA WATKINS

     Drones so objetos voadores autnomos, capazes de se deslocar de um ponto a outro e de realizar tarefas no ar sem que ningum precise pilot-los, ainda que de longe. So, portanto, robs alados. Nos ltimos dez anos, esses pequenos aparelhos com formatos estranhos povoaram o cu de pases conflagrados, fotografando e coletando informaes ou fazendo ataques areos em lugares perigosos demais para avies ou helicpteros comuns. Mais de 2000 terroristas j morreram em bombardeios feitos por drones americanos em pases como Paquisto, Imen e Somlia. Como ocorre frequentemente com tecnologias criadas para uso militar, os drones deixaram de ser apenas ferramentas letais ou de espionagem. J h alguns sendo usados na deteco de pragas nas lavouras, na perseguio de fugitivos da polcia, no controle de fronteiras e no monitoramento de usinas nucleares ou de turbinas elicas. A indstria cinematogrfica utiliza os drones para fazer filmagens areas, com a vantagem de eles serem mais baratos que aeronaves tripuladas e conseguirem entrar em espaos menores.  possvel, por exemplo, fazer uma cena contnua que comea no quintal de uma casa e termina no terrao do 20 andar de um prdio sem precisar recorrer a efeitos especiais. A polcia j usou um drone produzido no Brasil, o Escorpion, para fazer a vigilncia de favelas. Fabricado pela SkyDrones, de Porto Alegre, o aparelho cabe na mochila de um policial, tem autonomia de voo de trinta minutos e custa 350.000 reais. Em comparao, um helicptero que poderia ser usado para realizar a mesma misso de vigilncia area custa no mnimo 3 milhes de reais. A empresa AGX, de So Carlos, no estado de So Paulo, vende duas unidades por ms do Arara, um drone com preo inicial de 180.000 reais que monitora e mapeia fazendas e reservas naturais.
     J consagrados na rea militar e com aplicaes comerciais cada vez mais promissoras, os drones ainda esto em fase experimental no uso domstico. O que no falta  gente experimentando: estima-se que s nos Estados Unidos sejam postos no ar 1000 novos drones pessoais por ms. Alguns, como o Parrot AR,  venda na loja virtual Amazon por cerca de 600 reais, s podem ser considerados verdadeiros drones se conectados a um dispositivo  vendido  parte  que funciona como um piloto automtico. Outros so mais completos e fazem tudo o que um drone militar faz, menos explodir terroristas. O que diferencia os drones pessoais dos aeromodelos, os aviezinhos no tripulados construdos e pilotados por hobby,  que os primeiros, alm de ser capazes de fazer voos pr-programados, tm a aparncia totalmente subordinada  sua funo. Por isso os drones tm formatos to exticos. Alguns parecem aranhas, arraias ou polvos. Outros so esfricos. Como no possuem arestas, podem entrar e sair de ambientes pequenos, como cavernas ou casas, sem ficar presos a obstculos. Os drones pessoais se beneficiam dos mesmos avanos tecnolgicos existentes nos smartphones, dos microprocessadores menores e mais eficientes s cmeras diminutas e com boa resoluo, passando pelos acelermetros (sensores de movimento) e pelo GPS. Na maioria dos drones domsticos, a rota a ser percorrida  controlada por meio dessa tecnologia de localizao por satlite. J no Parrot AR, a comunicao entre o aparelho e o piloto em terra  feita via internet sem fio, e os comandos esto todos na tela de um celular.
     Por enquanto, ningum sabe muito bem que utilidade domstica um drone pode ter. Espionar a vizinha na piscina  uma opo a ser descartada, pois configura invaso de privacidade. A possibilidade de ver sem estar presente ou sem ser visto tambm  o conceito que levou um aluno do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, a criar o Bounce Imaging, uma esfera do tamanho de uma bola de tnis que, atirada dentro de um apartamento, por exemplo, captura imagens panormicas e coleta informaes do ambiente, como a temperatura e os nveis de oxignio. O Bounce Imaging pode ajudar no trabalho de bombeiros e policiais, mas, como os drones, no parece muito til no dia a dia. O mesmo se pensava, porm, dos primeiros computadores, cujas funes eram muito limitadas. No futuro, quem sabe, os drones podero at substituir os motoboys, entregando pizzas e levando documentos a cartrios.
COM REPORTAGEM DE TAMARA FISCH


8. AUTOMVEIS  O CARRO DAS BOAS INTENES
Em duas semanas, ser possvel fazer no Brasil test drive com o Prius, o hbrido queridinho dos ambientalistas e dos artistas, que comea a ser vendido no pas em janeiro.
GUSTAVO SIMON

     Dentro de duas semanas os brasileiros podero conhecer de perto  e dirigir  o carro que se tornou o smbolo da era verde na indstria automobilstica: o hibrido Toyota Prius. Os revendedores da marca nas sete maiores capitais do pas recebero lotes do carro para oferecer sesses de test drive a seus clientes. Quem gostar da experincia poder levar um Prius para a garagem a partir do comeo de janeiro, quando se iniciaro as vendas do modelo no Brasil. O carro  equipado com dois motores, um eltrico e outro a combusto. O eltrico  alimentado pela energia cintica produzida pelo movimento das rodas. Na partida e em velocidades abaixo de 40 quilmetros por hora, o Prius usa apenas a propulso eltrica. Acima dessa velocidade, o motor a combusto, movido a gasolina,  acionado. Isso permite que o veculo rode 25 quilmetros com 1 litro de gasolina. Carros convencionais do mesmo porte consomem o triplo de gasolina e, em mdia, emitem 40% a mais de gases poluentes na atmosfera.
     O Prius j foi lanado em setenta pases e  um sucesso.  o 12 automvel mais vendido nos Estados Unidos. No Japo, considerando-se, alm do modelo hatch, as verses perua, compacta e plug-in (eltrico recarregvel na tomada), tambm  o carro mais comercializado. Os Prius vendidos no Brasil sero importados do Japo.
     Ao contrrio da maioria dos carros, o Prius faz tanto sucesso no por ser especialmente bonito, potente ou robusto. Seu grande trunfo  ter se transformado numa bandeira dos que militam a favor das causas ambientais ou simpatizam com elas, sobretudo nos Estados Unidos. Quem anda a bordo de um Prius imediatamente desperta a simpatia da tribo cada vez mais numerosa dos que tentam fazer sua parte para salvar a sade do planeta. Ser dono de um Prius tambm conta pontos para os artistas, cujo sucesso na carreira depende da popularidade e da imagem atrelada s boas aes. O ator Leonardo DiCaprio, que dirige uma fundao ambiental,  um dos entusiastas do veculo  a imprensa de celebridades diz que ele chegou a presentear com o modelo namoradas que circulavam por Los Angeles em peruas beberronas. A lista de celebridades americanas proprietrias de Prius  extensa e inclui nomes de vrias geraes  Dustin Hoffman, Cameron Diaz e a estrelinha teen Miley Cyrus. Com tanta gente famosa ao volante do Prius, no   toa que o carro tambm serve de alvo dos humoristas (veja a charge na pg. 128).
     O Toyota Prius ser o quarto carro hbrido colocado  venda no Brasil. Os demais so o Mercedes-Benz Classe S400, o Ford Fusion e o Porsche Cayenne. Juntos, porm, esses trs modelos venderam at hoje apenas 300 unidades. Eles funcionam como uma espcie de carto de visita das empresas que os produzem. A expectativa da Toyota  de vender 1000 unidades do Prius no Brasil em 2013. O grande obstculo a esse objetivo  que o hbrido custar 120.000 reais. Para efeito de comparao, o Nissan Versa, um carro do mesmo porte e potncia,  vendido no Brasil por 36.000 reais. Os japoneses pagam pelo Prius o equivalente a 63.000 reais e os americanos, 48.000 reais. Isso ocorre porque muitos governos oferecem subsdios s indstrias que produzem hbridos e facilidades a seus compradores. Nos Estados Unidos e no Japo, h abatimento nos impostos que recaem sobre os hbridos. Na Inglaterra, os carros desse tipo no esto sujeitos ao pagamento do pedgio urbano cobrado no centro de Londres. No Brasil, para rodar segundo a cartilha ambientalista, ser preciso pagar um preo salgado. 

CHARGE
Este  o hbrido. Funciona com um motor convencional a gasolina, at se sentir culpado e acionar seu motor a bateria.


9. BELEZA  AS TTICAS DAS MULHERES-BOMBA
As adeptas do expansionismo corporal fazem exerccios compulsivos e intervenes cirrgicas radicais. Muitas usam, mas poucas admitem, uns certos remdios proibidos.
DOLORES OROSCO

     Qual sua opinio sobre o conjunto esttico da jovem danarina na foto  direita? Como em praticamente tudo neste mundo, as opinies provavelmente sero muito divergentes. Vrias mulheres, inspiradas pelo padro esguio das modelos famosas, se arrepiaro de horror. Vrios homens, autodeclarados adeptos da fartura, aprovaro. Num ponto todos concordaro: isso nunca existiu antes. So as mulheres em permanente expanso corporal. Dotadas de um tipo fsico j naturalmente reforado, elas abusam das cirurgias plsticas at os limites da elasticidade cutnea, turbinam a musculatura com exerccios que deixariam muitos homens sem flego e seguem dietas desenhadas para estufar todas as curvas que podem ser aumentadas. Nos intervalos da malhao, muitas tambm aplicam os aditivos que funcionam como uma espcie de fermento dos msculos. So as megabombadas.
     A protagonista da foto, Masa Caroline Hoche, 24 anos, danarina de funk do Rio de Janeiro, levou dois anos para construir um corpo assim. A cintura foi afinada em 10 centmetros, por meio de uma lipoescultura. Os seios foram inflados com um total de 800 mililitros de silicone. As prteses das ndegas somam outros incrveis 1160 mililitros. Por causa da lombada nas costas, no consigo mais dormir de barriga para cima. De lado tambm no d, porque o peso me puxa para trs. Tive de me treinar para deitar, para o resto da vida, s de bruos, descreve a danarina, que, alm da mudana na grafia do nome, agregou a ele um aposto: agora ela  Maysa Abusada. Os abusos funcionam em vrias direes. Para avolumar os msculos, Maysa recorreu a esteroides anabolizantes, substncias perigosas e proibidas, que circulam livremente na internet e em academias de ginstica. Usei deca injetvel diretamente no msculo da coxa e do brao durante trs semanas. Fiquei com a barriga toda cortadinha de msculo, uma belezinha, diz Maysa, referindo-se  substncia decanoato de nandrolona (no quadro abaixo, um resumo das bombas mais frequentes). Sofreu complicaes srias: Tive infeco nos rins e fiquei duas semanas internada. Passei meu aniversrio no hospital. A culpa foi de alguns amigos falsos da academia.
     A maior parte das substncias usadas por mulheres que querem ficar bombadonas imita, de maneira sinttica, a testosterona. Com funes importantssimas quando distribudo de forma natural, esse hormnio existe em grandes quantidades no corpo dos homens e, em propores bem menores, no das mulheres. Quando injetada artificialmente, a testosterona produz transformaes chamadas de virilizantes no organismo feminino. A voz fica mais grossa e nascem pelos escuros e espessos no rosto e nos mamilos. Outro sinal patente de seu uso so as espinhas nas costas, no colo e no rosto. Minha voz passou de Sandy para Ivete Sangalo, brinca Maysa. As transformaes tambm podem atingir os rgos genitais, especialmente o clitris, que chega a quadruplicar de tamanho. Quando turbinado pela testosterona, o clitris incha e pode chegar a medir 7 centmetros, diz a endocrinologista Amanda Athayde, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Ao contrrio do que seria uma concluso natural, o aumento do clitris no influencia no prazer sexual. Algumas terminaes nervosas so danificadas e a mulher pode at perder a sensibilidade na regio.
     Na forma aprovada pela medicina universalmente aceita, a testosterona sinttica  componente de uma srie de medicamentos usados para tratar pacientes que sofrem de degeneraes musculares graves. Evidentemente, exige prescrio mdica. Malhadores mal orientados conseguem comprar o produto pela internet ou com receitas de mdicos amigos.  assim tambm que  feito o acesso ao GH, sigla em ingls para o hormnio do crescimento. Produzido pela glndula hipfise, ele tem um papel essencial no processo de crescimento das crianas e dos jovens. Nas mos dos malhadores bombados,  utilizado para aumentar a densidade ssea e a massa muscular. Por causa da atuao na ossatura, um de seus efeitos colaterais muda at o formato do rosto. Isso acontece com o alargamento dos maxilares. Em casos mais graves, esse alargamento promove mudanas na arcada dentria, como a separao dos dentes. O hormnio tambm reduz a gordura do rosto, deixando a mandbula mais projetada, explica Marcello Bronstein, professor de endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP. Mais grave ainda so as agresses do GH e dos esteroides anabolizantes a rgos vitais como o corao e o fgado. O corao tambm  msculo e, assim, sofre os efeitos da hipertrofia. As artrias ficam entupidas e aumenta o risco de infarto, diz o fisiologista Renato Romani, do Hospital Nove de Julho, em So Paulo. J o fgado  o estabilizador qumico do organismo. Quando ao volume natural de impurezas se acrescentam substncias ingeridas, como os anabolizantes, ele pode sofrer leses graves.
     H mulheres que malham de maneira agressiva para conquistar msculos que muitos homens no tm usando apenas uma fora de vontade quase sobre- natural. A paulista Fabiana Frota, 31, garante que  uma delas. Mulher de Alexandre Frota, atualmente dedicado  carreira de jogador de futebol americano, e danarina do programa do Raul Gil, Fabiana  incisiva ao declarar que no tem nem uma gota de anabolizante, Deus me livre, de jeito nenhum no corpo. Em So Paulo, a mulherada usa menos, mas no Rio de Janeiro  uma loucura. Elas querem ficar enormes para algum ver e chamar para desfilar no Carnaval, compara. A danarina comeou a trabalhar os msculos h quatro anos com o personal trainer Renato Ventura. O formato corporal foi encomendado pessoalmente por seu amigo Frota, que pediu coxas grossas e ndegas bem pronunciadas, mas nada de brao de marmanjo, segundo relembra Ventura. Ele gosta de mulher fininha em cima e gostosona embaixo, explicita. Fabiana, analisa o treinador, tem uma gentica mgica, que faz com que ela ganhe msculos muito facilmente. Para dar um belo empurro na gentica, trs vezes por semana Fabiana treina exclusivamente coxas e ndegas com cargas bombsticas: 40 quilos em cada tornozeleira. Com esses pesos que eu tambm carrego na barriga, fico parecendo uma mulher-bomba, diverte-se ela, referindo-se aos infames coletes usados por terroristas suicidas.
     As dez claras de ovo cozidas que come no lanche da tarde me ajudaram a ganhar o par de coxas que eu buscava, diz a danarina. A nica coisa que ela diminuiu foram as prteses mamrias de silicone. As originais, de 550 mililitros, foram trocadas por outras de 470, para que no produzam um efeito gigantesco demais quando aparecem na televiso.
     Mulheres que vivem profissionalmente do corpo no deixam tudo nas mos da natureza. A comparao  esquerda entre uma modelo conhecida pelo corpo esguio como a sul-africana Candice Swanepoel e a musculosa Fabiana Frota mostra as diferenas entre padres distintos de beleza  e de resultados busca- os com os exerccios fsicos. No caso das mulheres que usam substncias proibidas, esses resultados so potencializados. Os esteroides estimulam a produo de micitos, nome das clulas que constituem os msculos, e podem aumentar entre 30% e 50% a circunferncia das coxas. Sem o anabolizante, o corpo leva o dobro do tempo para conseguir isso, diz o fisiologista Renato Romani. A ex-apresentadora de TV Mirella Santos costumava fazer musculao sete vezes por semana, levantar 300 quilos com as pernas e tomar intragveis cinco shakes de protenas por dia. Tambm dava uma incrementada. H uns dez anos, usei anabolizante. Parei porque eu no gosto de regra, de ter de tomar um negcio todo dia, na mesma hora, lembra Mirella, que abandonou o padro mulher-bomba e voltou a ter um corpo enxuto fazendo exerccios mais leves e uma dieta em que reina o sushi. Malhamos juntos e terminei entrando tambm na onda da alimentao saudvel dela, diz Wellington Muniz, humorista do Pnico e marido de Mirella. Mas que ningum fale em enxugar alguma coisa perto de Maysa Abusada. O cach dela em shows em que dana subiu de 800 para 3000 reais com o corpo expandido. Os homens viram o pescoo quando passo, alegra-se. Mulheres e travestis tambm, mas  s para botar olho gordo. Abusada. 
COM REPORTAGEM DE MARLIA LEONI


10. IMPRENSA  A TELEVISO EM PAPEL
Um novo livro focaliza a fase de ouro de O Cruzeiro, publicao pioneira no Brasil dedicada a fazer toda semana um retrato ilustrado do pas e de seu povo.
MARCELO BORTOLOTI

     Foi nos anos 40 e, principalmente, nos efervescentes anos 50 do sculo passado que o Brasil ganhou uma real identidade nacional, baseada em projetos ufanistas e mobilizaes populares. A Marcha para o Oeste, que Getlio Vargas empreendeu para preencher as imensas reas desocupadas no interior, fez surgir dezenas de pistas de pouso, vilas e cidades e promoveu o contato com tribos indgenas desconhecidas. Juscelino Kubitschek implantou a indstria automobilstica e comeou a construir Braslia e a fiscalizar a obra  tantas vezes embarcou num avio que ganhou o apelido de presidente voador. No Rio de Janeiro, os concursos de Miss Brasil, a partir de 1954, despertavam comoo nacional e o desempenho da representante brasileira no Miss Universo tinha ares de final de Copa do Mundo. As imagens desse tempo em que os acontecimentos ganhavam contornos picos chegaram pela primeira vez a todos os cantos do pas nas pginas da revista O Cruzeiro, do empresrio da comunicao Assis Chateaubriand, a pioneira na cobertura e na distribuio nacional de notcias. A populao pde enfim incorporar ao seu dia a dia elementos que lhe eram distantes, de guerras e revolues  vida dos astros de Hollywood. Tudo isso na forma de fotografias caprichadas  esta, a chave do sucesso de O Cruzeiro.
     Criada em 1928, tornou-se em seu auge, justamente os anos de ebulio nacionalista, a revista mais lida no pas, com tiragem de 700.000 exemplares em um tempo em que o Brasil tinha pouco mais de 50 milhes de habitantes. Espelhava-se em outras publicaes ilustradas que proliferavam no mundo e causou impacto imediato. Como no havia televiso, a construo da identidade visual brasileira passou pelas fotos de O Cruzeiro, diz o fotgrafo e antroplogo Milton Guran. Uma TV em papel. O Cruzeiro popularizou as charges e ilustraes com o Pif-Paf, de Millr Fernandes, e com O Amigo da Ona, que se tornou sinnimo de pessoa traioeira, criado pelo cartunista Pricles. Sobreviveu por 47 anos, at sucumbir  concorrncia e ao declnio do imprio de Chateaubriand. Um alentado conjunto das fotos e reportagens que deram relevncia  publicao est reunido em uma exposio que o Instituto Moreira Salles vai inaugurar no prximo dia 22, em So Paulo, e no livro As Origens do Fotojornalismo no Brasil: um Olhar sobre O Cruzeiro (1940-1960), a ser lanado em dezembro, com 220 fotos de dezesseis profissionais que trabalharam na revista.
     O conjunto ajuda a recontar momentos decisivos, como a ascenso e queda de Getlio Vargas e a fundao do Museu de Arte de So Paulo. A revista tambm contribuiu para despertar o encanto popular pelas estrelas do cinema, que tinham lugar cativo na capa. Os estdios americanos enviavam fotos e reportagens de graa em troca de publicidade, diz Helouise Costa, curadora do projeto ao lado de Srgio Burgi. Cultivou lendas duradouras, como a de que Martha Rocha perdeu a coroa de Miss Universo porque tinha 2 polegadas a mais nos quadris, pura inveno de um reprter imaginativo. O Cruzeiro tinha, sim, seus pecados, e bem graves. A pauta servia escancaradamente aos interesses particulares de Chateaubriand, elogiando e criticando quem ou o que ele mandasse. O tom era de aberto sensacionalismo, manifestado principalmente no material produzido  ou, vrias vezes, inventado  pela dupla formada pelo fotgrafo Jean Manzon e pelo reprter David Nasser. A coleo de imagens agora reunida, da qual VEJA publica quatro fotos, traz  tona essas ambiguidades e comprova o papel essencial de O Cruzeiro no esforo de levar aos brasileiros a viso de um Brasil e de um mundo em plena transformao que eles pouco conheciam. 

S O PIF PAF D AO SEU RISO O MXIMO
LIVRAI-ME DA JUSTIA, QUE DOS MALFEITORES ME LIVRO EU!
PIONEIRA: O trao de Millr no Pif-Paf, a miss Brasil Martha Rocha e, no alto, a capa nmero 1, com o rosto de uma atriz do cinema mudo: O Cruzeiro inovou no humor, na cobertura de assuntos nacionais e na promoo de celebridades.

O MUNDO L FORA
Uma das marcas de O Cruzeiro era investir pesadamente na cobertura de acontecimentos distantes, no Brasil e fora dele. Em 1951, o fotgrafo Luciano Carneiro foi despachado para a frente da Guerra da Coreia. Piloto e paraquedista, ele teve permisso para saltar com 3500 soldados americanos encarregados de perseguir inimigos chineses e norte-coreanos em fuga. Fez registros notveis das tropas em ao. Lamentavelmente para o autor de uma obra to vibrante, Carneiro morreria oito anos depois, aos 33, em um acidente areo, quando voltava da cobertura de um baile de debutantes em Braslia.

CONTATOS IMEDIATOS
A imagem de um ndio ajudando a tirar um avio de um atoleiro, usada na reportagem que acompanhou uma expedio da Aeronutica para criar pistas de pouso no interior, faz parte da vasta cobertura que O Cruzeiro dedicou  Marcha para o Oeste, nos anos 1940. Diz a legenda: Fortes, amigos, eles no se negam a ajudar os civilizados em qualquer tipo de servio. J  tempo de aproveitar a inteligncia e a capacidade dos indgenas em prol do progresso e da civilizao desta nossa Repblica. Os textos tinham sempre um tom de aventura e fotgrafos e reprteres eram tratados como desbravadores. Foi a primeira publicao a divulgar imagens de tribos ainda desconhecidas, da seca no serto nordestino e de rituais do candombl.

PRESIDENTE VOADOR
Em 1958, na cerimnia de inaugurao de um heliponto no teto do Palcio do Catete, a sede da Presidncia da Repblica, o fotgrafo Flvio Damm fez esta imagem do presidente Juscelino Kubitschek como se tivesse asas. A foto reflete o que o francs Henri Cartier-Bresson chamava de momento decisivo, o clique no momento exato de registrar determinada situao que no voltar a se repetir. Foi uma mudana de padres  a troca das pesadonas cmeras Rolleiflex das fotos posadas e arranjadas pela imagem da gil Leica, comprometida com a realidade e com o instantneo da cena. A novidade rachou a redao de O Cruzeiro, mas a modernidade acabou prevalecendo.

ARMAO ILIMITADA
Por esta foto de fraque e cueca, feita em 1946, o deputado Barreto Pinto, do PTB, se tornou o primeiro poltico da histria cassado por falta de decoro. Barreto Pinto recebeu Manzon e Nasser para uma entrevista em seu gabinete e foi convencido pelo fotgrafo de que no precisava vestir a cala, j que todas as fotos seriam da cintura para cima. Vaidoso, ele ainda concordou em posar nos trajes ridculos. Publicadas as imagens, as legendas davam a entender que o parlamentar recebia visitas naqueles trajes: A nobreza dos passos revela a nobreza da origem. E o deputado queremista-trabalhista se dirige ao salo, onde os convidados o esperam h tanto tempo. Barreto Pinto processou a revista e perdeu.


